Exclusiva: Como é jogar uma Copa do Mundo? Ex-jogadores revelam os bastidores do maior torneio do planeta

Foto de Gabriel Gonçalves
Escrito por: Gabriel Gonçalves, Redator senior | Revisado por: Carla Leal, Revisora
Publicado jun 16, 2026 - Última atualização jun 17, 2026 8

foto de ricardo rocha pela seleção brasileira

Em todos os jogos da Seleção Brasileira, milhões de brasileiros cumprem uma rotina típica de Copa do Mundo: acordar cedo, trabalhar (se precisar), arrumar a casa ou já sair para assistir ao jogo do Brasil.

É assim de quatro em quatro anos, com viagens, idas a casas de amigos ou simplesmente da sala para a cozinha. Sobre isso, nós já sabemos.

Mas você sabe como é a rotina lá? E se, ao invés de acordar e se arrumar para assistir ao jogo, você acordasse e se arrumasse para jogar?

Como jornalista e torcedor, é impossível responder a essa pergunta. Por isso, a Estádio Total foi atrás de quem realmente sabe: os jogadores.

Entrevistamos nomes importantes para as suas seleções, que jogaram — e até ganharam — uma Copa do Mundo. São eles:

  • Carlos Germano: ex-goleiro de Vasco da Gama, Santos, Internacional e Botafogo. Jogou a Copa do Mundo de 1998 pelo Brasil;
  • Edílson Capetinha: ex-atacante e ídolo do Corinthians. Jogou a Copa de 2002, sendo campeão do mundo pela Seleção Brasileira;
  • Ricardo Rocha: ex-zagueiro com passagens por São Paulo, Real Madrid, Santos e Vasco da Gama. Jogou as Copas de 1990 e 1994, sendo campeão mundial em 1994;
  • Silas: ex-jogador de São Paulo e Vasco da Gama. Jogou as Copas de 1986 e 1990;
  • Luigi Apolloni: ex-jogador do Parma. Jogou a Copa de 1994 pela Itália.

Nós fizemos perguntas sobre como é jogar uma Copa do Mundo. Bora?

O começo de tudo: a convocação

Como vimos no anúncio dos 26 convocados da Seleção Brasileira (com muita festa), a Copa do Mundo começa bem antes da bola rolar.

O jogador já entra no clima de Copa do Mundo quando seu nome aparece na convocação. A resposta dos jogadores é quase a mesma: a realização de um sonho.

Luigi Apolloni:  Jogar uma Copa do Mundo é algo extraordinário e maravilhoso, porque representa, para mim, a coroação de muitos sacrifícios feitos por um garoto que começou a jogar apenas por diversão e que depois se tornou profissional. Por meio do clube, chegar a um evento único e extraordinário como a Copa do Mundo é muito especial. É uma jornada extraordinária.

foto de luigi apolloni

Luigi Apolloni em disputa de bola com Romário na final da Copa de 94.

Não há um levantamento específico, mas, somando dados, podemos pensar que algo próximo de 20 mil brasileiros jogam futebol profissionalmente. O treinador da seleção escolhe 26 jogadores (a partir de 2022; antes, eram menos).

E isso acontece a cada quatro anos. Então, pense que, neste século, com sete Copas do Mundo, pouco mais de 140 profissionais de cada nacionalidade tiveram a chance de disputar o torneio.

“A minha alegria foi imensa. Qualquer jogador gostaria de jogar na seleção do seu país. Eu tive a sorte de jogar duas copas, a de 90 e a de 94”, conta o campeão do mundo, Ricardo Rocha.

foto de ricardo rocha com a camisa do brasil

Ricardo Rocha com a camisa do Brasil.

É o filtro do filtro.

“É o maior sonho de um jogador de futebol. A alegria é imensa. É a realização do sonho maior. Poder representar o seu país em uma Copa do Mundo é uma emoção indescritível”, cita Carlos Germano.

Quando o torneio começa: o que acontece lá?

Quem já viajou a trabalho tem uma boa noção do que é estar fora de casa para desempenhar suas funções normais do dia a dia.

Mas será que a Copa do Mundo exige apenas as funções normais do dia a dia? Para os jogadores, sim.

Apesar de toda a magia de realizar o sonho de jogar uma Copa do Mundo, a rotina do torneio não é muito diferente daquela à qual esses profissionais já estão acostumados.

Carlos Germano: A rotina é a mesma: treino, descanso, jogo e viagens. Porém, com uma intensidade e uma visibilidade muito maior. Seguimos horários de alimentação, descanso, palestras.

Luigi Apolloni: Segue tudo o que já é feito pelo clube. Os treinamentos são planejados pelo treinador para que você chegue preparado para a competição. Além disso, há toda a orientação médica e a alimentação adequada preparada o tempo todo por profissionais capacitados.

Silas: O dia a dia é normal, como em um time de campeonato. Alimentação, treino, descanso, mais treino… E, às vezes, vídeos sobre o adversário. Lanche à noite e mais descanso.

Segundo o campeão do mundo Edílson, o staff de profissionais da seleção costuma ser muito competente na manutenção do elenco.

Edílson: O dia a dia é maravilhoso. A gente se alimenta bem, tem acompanhamento diário, preparação física, fisiologia, psicológico. Ali dentro, você está junto com os jogadores e forma uma família. O ambiente é muito legal e temos todas as condições para entregar o melhor possível no campo.

Mas e as críticas, os jornais e o “hate”? Silas explicou que o jogador tem tempo, sim, para ver o que se fala sobre ele, além de conversar com os próprios amigos.

“Na concentração se vê as notícias, há tempo para a leitura e resenha também”, cita o ex-jogador de duas Copas do Mundo.

foto de silas ex-jogador da seleção

Silas em ação com a camisa do Brasil.

Dá tempo de curtir o país? O jogador como um simples turista

É bem comum que o jogador esteja disputando a Copa em um país em que não mora. Porém, será que, com toda a concentração, é possível aproveitar a estadia também como um turista especial?

Ricardo Rocha: Você tem algumas folgas que você curte com a família, faz um turismo pelo país. Mas não dá para ir muito longe, não, porque as folgas são muito curtas. Tem, sim, como conciliar as duas coisas, mas é 80% a 90% trabalhar e pensar em ser campeão. Em alguns momentos, dá para conciliar, sim.

Luigi Apolloni: Lembro-me que, na Copa de 1994, o técnico nos deu algum tempo livre. Quem tinha esposa, noiva ou filhos passava esse tempo com a família. Quem não tinha podia passear pela cidade e relaxar um pouco, aliviando a pressão da competição.

Portanto, a Copa do Mundo pode passar uma imagem de concentração total. Porém, é impossível para o ser humano manter isso o tempo todo. Todo mundo pode ter os seus momentos também.

Edílson: Nós não podemos perder o foco, mas temos um contato importante com a família. A família passa energia e força para a gente que está ali concentrado. A família é muito importante. Lógico que concentrado para o trabalho, até porque é uma oportunidade única, temos pouco tempo ali em busca de um objetivo. Nada de fora pode influenciar lá dentro.

Então, o que a Copa tem de diferente?

Todos os jogadores foram unânimes ao responder que o aspecto mais diferente da Copa é a escassez.

Pense em um jogador que atuou profissionalmente por 20 anos. Ele teve 20 competições nacionais, umas 20 copas nacionais, estaduais e intercontinentais. São ao menos 40 ou 50 chances de ganhar um título.

Já é estreito o filtro de quem vai para a Copa do Mundo. Muitos têm essa única chance.

Ricardo Rocha: É de quatro em quatro anos. É muito difícil ganhar, já estamos há 24 anos sem o título. Não é mole, não. Eu até brinco que o mundo tem 8 bilhões de pessoas e, campeões do mundo, não tem 500. Se não me engano, o Brasil tem 62. É totalmente diferente. É o ápice do jogador de futebol.

Carlos Germano: A Copa do Mundo é a realização do sonho maior. É um campeonato muito curto. Na de 1998, que eu joguei, foram 7 jogos, incluindo a final. Então, não tem espaço para erro. Tem que estar focado e muito bem preparado, no ápice da forma física e da técnica, com concentração total.

carlos germano

Carlos Germano integrou o grupo vice-campeão do mundo em 1998.

Os momentos mágicos e as tragédias

Como qualquer outra coisa na vida, a Copa pode trazer grandes histórias ou grandes decepções.

Por isso, perguntamos aos jogadores sobre momentos mágicos e trágicos, investigando o que mais os impactou durante aquele torneio.

“O momento mais difícil é, sem dúvida, uma derrota. E o melhor é quando você ganha”, cita Silas.

Todos nós conhecemos a Copa de 1994 pelo prisma de quem comemorou a bola de Baggio viajando pelo estádio. Porém, nós conversamos também com alguém que estava do outro lado.

Luigi Apolloni relembrou a trajetória na Copa, marcada pela alegria de jogar e pela tristeza de ver o verde e amarelo correndo pelo estádio.

Luigi Apolloni: A melhor lembrança foi a minha estreia. Ela aconteceu de forma inesperada, por conta da lesão do Baresi. O treinador confiou em mim e me escolheu para jogar. Fiquei extremamente feliz.  Já a lembrança mais difícil foi ver o Brasil levantar a taça. Chegar à final e depois ver o título escapar foi, sem dúvida, o momento mais amargo.

Edílson:  O mais difícil é quando você perde um jogo, né? Na Copa de 2002 eu não tive esse sabor de perder um ‘jogozinho’ (sic). Ganhamos todos, O momento mais feliz é quando você ganha uma Copa do Mundo. Dever cumprido. Você saiu com aquela missão de ser campeão e trazer alegria para o brasileiro. Você sai e consegue. É a melhor alegria do mundo.

Germano ainda falou sobre a alegria de ouvir o hino enquanto jogador.

Carlos Germano: O momento mais mágico é quando você perfila e escuta o Hino Nacional. O mais difícil é a própria competição em si. Você tem que provar para o país e para o mundo que você é o melhor.

O legado de uma Copa do Mundo

Ganhando ou não a Copa, os jogadores ressaltaram como o torneio consegue mudar a vida de quem disputa a competição.

“Muda tudo, você passa a estar entre os poucos jogadores que serviram a seleção de seu país. 1 em 1 milhão no mundo tem a chance de jogar uma Copa do Mundo”, cita Silas.

Ricardo Rocha: Muda muito, o reconhecimento é mundial, principalmente 94, o torcedor tem muito carinho por essa seleção. Muda tudo, a gente sabe disso, são poucos vivos que têm esse título. Tenho orgulho de ser brasileiro, somos pentacampeões.

Quem esteve no penta também citou o orgulho.

Edílson: Quando você joga e principalmente quando ganha, você é lembrado para o resto da vida. Não tem dinheiro que pague isso. Não tem dificuldades no futebol para um cara que sai com esse objetivo e consegue. Acho que ele mostra que as dificuldades que teve durante a vida foram prazerosas e foram válidas, porque o título de campeão mundial valida todo o esforço que você fez durante toda a carreira. É o topo de onde a gente pode chegar.

foto de edilson capetinha, ex-jogador da seleção

Edílson veste a camisa do Brasil na Copa de 2002.

A Copa do Mundo parece pertencer totalmente aos torcedores, que acordam cedo, pintam o rosto e vestem a camisa. Porém, do outro lado da tela, há uma rotina muito diferente daquela que imaginamos.

Há treinos, reuniões, alimentação controlada, pressão, cobrança e a consciência de que aquela oportunidade talvez nunca volte. Para quem está dentro do torneio, a Copa não é apenas um espetáculo: é trabalho, responsabilidade e a busca por um sonho construído durante toda uma vida.

E talvez seja justamente isso que torna a competição tão especial. Enquanto bilhões de pessoas assistem aos jogos, apenas algumas centenas têm a chance de entrar em campo. Mais raro do que conquistar a taça é chegar até lá.

No fim das contas, a Copa do Mundo é muito mais do que noventa minutos de futebol. É o ponto de encontro entre o sonho de um garoto que começou brincando com uma bola e o maior palco que o esporte pode oferecer.

Fórum sobre “Exclusiva: Como é jogar uma Copa do Mundo? Ex-jogadores revelam os bastidores do maior torneio do planeta”

  • Ricardihno diz:

    Que ótimo artigo, que lembranças, e como deve ser lindo poder viver algo assim pelo menos uma vez na vida

    17/06/2026 at 11:15 pm Responder
  • Eduardo Almeida diz:

    Esses jogadores honravam a camisa brasileira. Saudade dessa época.

    23/06/2026 at 1:34 pm Responder
    • Felipao diz:

      aquela era, com certeza, uma época muito melhor do que hoje em dia

      24/06/2026 at 7:16 pm Responder
  • Mah diz:

    Que artigo top! Deu para sentir a emoção de participar de uma Copa do Mundo!

    23/06/2026 at 1:41 pm Responder
  • Pedro diz:

    Dom Ricardo Roberto Barreto da Rocha, ainda lembro de quando ele assinou com o Real Madrid. Foi titular absoluto nas duas temporadas em que jogou pelos merengues!!!

    25/06/2026 at 1:01 am Responder
  • Carla Simone diz:

    Boas recordações da época em que os jogadores honravam a camisa. Eles servem de exemplo para as novas gerações.

    25/06/2026 at 9:23 am Responder
  • Marcos dos Reis diz:

    Ricardo Rocha monstro! Criador do infame “Breque da Paraíba”… os atacantes se tremiam!

    25/06/2026 at 2:03 pm Responder
  • Liv diz:

    Que nostalgia boa! Precisamos resgatar esse espírito de equipe!

    25/06/2026 at 11:14 pm Responder

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