AFA
Há times que acreditam até o fim. Outros simplesmente transmitem a sensação de que o gol vai acontecer a qualquer momento. A Argentina está no segundo grupo.
Mesmo saindo atrás do placar contra a Inglaterra na semifinal da Copa do Mundo de 2026, a equipe de Lionel Scaloni nunca pareceu perder o controle da partida.
Não houve desespero, chutões ou pressão desorganizada. Houve paciência, circulação de bola e um domínio territorial que foi crescendo até transformar os minutos finais em um certo à área inglesa.
Instagram Messi
Os números mostram que a impressão não foi apenas subjetiva.
Dados da FIFA, da Opta e do Sofascore revelam uma semifinal em que a Argentina controlou o ritmo durante quase todo o jogo e, quando a Inglaterra decidiu proteger a vantagem, encontrou exatamente o cenário que mais gosta: posse de bola, adversário encurralado e Lionel Messi comandando os espaços entre as linhas.
A virada por 2 a 1 não foi um golpe de sorte. Foi a consequência de uma equipe que parecia absolutamente convencida de que, mais cedo ou mais tarde, encontraria o caminho da vitória.
A Argentina cozinhou a Inglaterra até o momento certo
O primeiro tempo deu a impressão de uma semifinal ruim, mas a sensação enganava. Na prática, a Argentina jogava exatamente a partida que queria.
Os argentinos terminaram os primeiros 45 minutos com 55% de posse de bola (56% ao fim do jogo, segundo a FIFA), trocaram 250 passes contra 198 da Inglaterra e controlaram completamente o ritmo da partida.
Não era um domínio ofensivo, mas sim territorial. A produção ofensiva praticamente não existiu.
Foram apenas três finalizações em toda a primeira etapa — duas da Argentina e uma da Inglaterra —, com apenas 0,08 gols esperados (xG) somando as duas equipes (0,02 xG para os argentinos e 0,05 para os ingleses), o menor índice registrado pela Opta em um primeiro tempo de mata-mata de Copa do Mundo desde 1966.
Fonte: Opta
Não por acaso, a semifinal entrou para a história.
Segundo a Opta, Inglaterra x Argentina foi o primeiro jogo de uma Copa do Mundo a passar 30 minutos sem nenhuma finalização desde que a empresa começou a registrar os dados da competição.
Mesmo sem acelerar, a Argentina já mostrava alguns sinais importantes.
Os argentinos realizaram 430 movimentos de apoio para receber passes, contra 300 da Inglaterra.
Também receberam 107 bolas entre as linhas defensivas inglesas, enquanto os ingleses conseguiram apenas 65. Ou seja, antes mesmo das chances aparecerem, a equipe de Scaloni já ocupava melhor os espaços.
Fonte: Who Scored?
Outro dado chama atenção.
A Argentina completou 125 quebras de linha, contra apenas 89 da Inglaterra. Isso mostra que sua posse de bola não era estéril.
A equipe conseguia ultrapassar constantemente a primeira linha inglesa, mesmo sem transformar isso imediatamente em finalizações.
Enquanto isso, a Inglaterra sobrevivia graças à intensidade física. Venceu 51% dos duelos na primeira etapa, obrigou a Argentina a apostar nas bolas longas e permitiu apenas um cruzamento certo dos argentinos nos primeiros 45 minutos.
Era um jogo completamente controlado emocionalmente pela Argentina, que não tinha a menor pressa.
O gol da Inglaterra destruiu o próprio plano inglês
Anthony Gordon marcou aos 55 minutos, o que parecia o cenário perfeito para Thomas Tuchel. Porém, foi exatamente o contrário.
Depois do gol, a Inglaterra abandonou praticamente qualquer intenção de atacar. Os números mostram uma transformação absurda.
Fonte: Sofascore
Entre o gol inglês e o apito final, a Argentina teve 88% de posse de bola, segundo a Opta. Na segunda etapa inteira, os argentinos dominaram praticamente todos os fundamentos ofensivos.
Fonte: Opta
Segundo a FIFA:
- 15 finalizações contra apenas 5 da Inglaterra;
- 5 chutes no alvo contra 2;
- 7 finalizações dentro da área contra apenas 2 inglesas;
- 6 escanteios contra apenas 1;
- 610 passes contra 353;
- 549 passes certos contra 293;
- 20 cruzamentos contra 15, acertando seis deles, enquanto a Inglaterra acertou apenas um.
Os números do Sofascore contam praticamente a mesma história.
A Argentina terminou o segundo tempo com 72% da posse de bola, criou três grandes chances, finalizou 13 vezes, acertou cinco chutes no gol, acertou duas bolas na trave e obrigou Jordan Pickford a fazer três grandes defesas.
No mesmo período, a Inglaterra conseguiu apenas quatro finalizações, um verdadeiro ataque contra defesa.
A Argentina começou a sufocar em todos os setores
A superioridade não apareceu apenas nas finalizações. Os argentinos acertaram 314 dos 338 passes da segunda etapa, um aproveitamento próximo de 93%, enquanto a Inglaterra acertou apenas 95 passes.
Veja o massacrante gráfico de distribuição de jogo no segundo tempo:
Fonte: Opta
Também venceram 53% dos duelos, dominaram 65% dos duelos pelo chão e acertaram 90% dos dribles, completando nove das dez tentativas.
Com a bola circulando cada vez mais perto da área inglesa, Messi encontrou um cenário perfeito para atuar.
Fonte: Sofascore
A FIFA mostra isso de forma clara. O jogador terminou o jogo com duas assistências, nove cruzamentos, 40 tentativas de quebra de linha com 19 conclusões, liderando praticamente todas as ações criativas da equipe.
Fonte: Sofascore
Enzo Fernández, por sua vez, foi quem mais participou da construção, com 84 passes certos, com 4 finalizações e correndo 11,12km ao longo do jogo, marcando um gol de fora da área.
Instagram Lautaro
Já Lautaro Martínez precisou de apenas uma oportunidade para decidir a classificação.
A Inglaterra aceitou jogar exatamente onde a Argentina é mais forte
Existe um detalhe que explica toda a semifinal. Durante o primeiro tempo, a Inglaterra mantinha a marcação mais alta e dificultava a circulação da bola argentina.
Depois do gol, Tuchel colocou Ezri Konsa, Dan Burn e Nico O’Reilly, deixando a equipe ainda mais recuada. Foi exatamente o cenário que Scaloni esperava.
A Argentina passou a instalar seu jogo no campo ofensivo. Veja o mapa de tentativas com a bola (dribles, passes-chave e assistências):
Fonte: Opta
Os argentinos terminaram a partida com 39 recuperações de bola, contra 32 inglesas, mesmo pressionando menos (188 ações de pressão contra 320 da Inglaterra). Isso mostra que a equipe já recuperava a posse naturalmente porque o adversário simplesmente não conseguia sair jogando.
A Inglaterra teve apenas 353 passes em toda a partida, enquanto a Argentina terminou com 610, com 257 passes a mais, uma diferença muito grande em uma semifinal de Copa do Mundo.
A experiência explica por que a Argentina nunca entrou em desespero
Quem olha apenas para o placar imagina que a Argentina precisou correr atrás do resultado. Na verdade, ela parecia confortável esperando que a oportunidade aparecesse.
Essa confiança não nasceu durante o jogo, mas vem da experiência acumulada por um elenco extremamente rodado.
Instagram Messi
A média de idade da seleção é de 28,8 anos, e os 26 convocados somam 1.350 partidas pela seleção argentina, segundo o Sofascore. O Brasil, por exemplo, somava 931 jogos entre todos os convocados.
Messi estreou em 2005, Otamendi em 2009, Tagliafico em 2017, Paredes em 2017, Lautrado em 2018, Mac Allister e Montiel em 2019. Enzo Fernández chegou apenas em 2022, mas já atua como um veterano.
Talvez seja justamente isso que diferencie esta Argentina. Ela não joga desesperada quando está perdendo.
Ela joga convencida de que, se continuar ocupando espaços, trocando passes e empurrando o adversário para trás, o gol vai aparecer.
E, contra a Inglaterra, apareceu duas vezes. É por isso que a sensação durante boa parte do segundo tempo não era de uma equipe tentando buscar a virada.
Era de uma seleção que simplesmente tinha certeza de que ela aconteceria.



Boa análise como sempre, mas acrescento uma coisa: a Argentina tinha certeza de que ia ganhar porque também sabem que têm a FIFA do lado deles. Não deveriam ter terminado o jogo com 11 jogadores.