Nosso colunista Deivis Chiodini selecionou os principais destaques entre as jovens promessas que disputam a atual edição da Série B do Campeonato Brasileiro.

Fabiano Rateke/Avaí
Os olhos do telespectador estão todos na Copa; é assim de quatro em quatro anos, e 2026 não fugiu à regra. Mas tem um trabalho que não para enquanto a bola rola no Mundial: o dos clubes vasculhando o mercado para a janela que abre em 20 de julho, um dia depois da final. Faz tempo que o scouting deixou de ser detalhe no futebol. Contratar bem virou questão de método, análise estruturada, critério e paciência.
E onde garimpar talento jovem melhor do que na Série B? Não se engane com o caos institucional: o Brasil segue despejando jogador de alto nível na esteira, mesmo com tanta gente tentando sucatear o sistema. A divisão de acesso é a prova mais escancarada disso. Os clubes dizem em alto e bom som que estão quebrados e que precisam vender as crias da base na hora para tapar buraco.
Ótimo para quem vem de fora com poder de compra e leva atleta para render uma década. E sobra espaço também para os poucos times da Série A que ainda têm caixa e um mínimo de estabilidade para brigar por esses nomes.
Pensando nisso, separei alguns que já pedem passagem para mercados maiores, todos com 24 anos ou menos, idade para brilhar por muito tempo. Vamos a eles.
Zé Lucas — Volante — Sport

Zé Lucas em jogo do Sport pela Série B – Foto: Ricardo Moreira
Zé Lucas é daqueles que te obrigam a parar e assistir. Volante de 18 anos com essa cabeça não aparece todo dia na Série B, e o que impressiona nem é a ousadia da idade: é a leitura. O garoto sabe o que o jogo vai pedir antes de a jogada nascer.
O físico já entrega gente grande. Forte, atlético, segura a bola como quem tem mil jogos nas pernas. Recebe sob pressão, encaixa o corpo de escudo e não larga, e isso muda a construção inteira, porque dá tempo para o time subir. Na fase defensiva são cinco bolas recuperadas por jogo, em média, sem nenhum erro que tenha virado finalização adversária. Contra um futebol que pressiona cada vez mais alto na saída, isso vale ouro.
Taticamente, ele transita por tudo. Desce para receber dos zagueiros, some entre as linhas, escapa do primeiro marcador como se nada fosse. São 81% de acerto nos passes sob pressão, justo os que quebram a linha e empurram o time para a frente.
A velocidade cobre o resto do campo: começa a jogada lá atrás e ainda chega para a fase ofensiva. (O mapa de calor não deixa dúvida sobre a capacidade de progressão dele.) No último terço vira meia, com acerto de passe acima dos 80% mesmo longe do gol.
Mapa de calor de Zé Lucas
Falhar, ele ainda falha, seria estranho não falhar. A finalização patina, principalmente de primeira, e o costume de perambular pelo campo abre buraco na hora de defender. Coisa de idade, dessas que treino resolve.
E o currículo pesa. Entrou no Sport aos 8 anos, pelo futsal. Estreou pelo profissional em janeiro de 2025, com 16, convenceu de cara e foi efetivado, renovando até 2028. Virou titular absoluto mesmo na roda-viva de técnicos do clube. Jogou 24 dos 38 jogos da Série A e é inegociável na Série B. Capitaneou a Seleção Sub-17 no Mundial do Catar, atuou em todas as partidas e hoje já é titular da Sub-20.
Lá fora repararam. Contrato até abril de 2028, multa de R$ 100 milhões para o mercado interno e € 50 milhões para o externo, com o Sport dono de 90% dos direitos econômicos. Depois do Mundial Sub-17, Alemanha, Inglaterra, Portugal e Espanha bateram à porta, e o Barcelona aparece como observador de plantão. Já foram duas propostas concretas em 2026, e o clube trabalha para negociar no meio do ano. Uma venda dessas pode estourar o recorde do Nordeste.
Zé Lucas ainda é bruto. Mas é bruto como diamante é bruto.
Melk — Meia — Ceará

Melk pelo Ceará – Foto: Gabriel Silva/Ceará
Anota esse nome: Melk. Não pela estatística estourada, porque rodagem ainda é o que falta, mas pelo tanto de coisa boa que ele resolve com pouca bola. Quando um meia novo junta técnica e leitura desse jeito, o resto tende a chegar.
A novela no Ceará começou em 2021, depois de uns testes, e foi engrossando: em 2025 ele já era peça no título da Copa do Nordeste Sub-20 e, mesmo encostado no elenco principal, fez questão de jogar a Copinha de 2026. Foram dois gols, duas assistências e uma campanha histórica até as quartas.
Técnica é o que não falta. Canhoto, joga centralizado como um 10 à moda antiga ou abre na direita, e em qualquer função o domínio salta aos olhos. Resolve no curto, recebe pressionado e não entrega a bola. Esse perfil é ouro para a construção, porque desatola justamente onde o campo aperta.
Mapa de calor de Melk
O que mais me ganha, porém, é a cabeça. Melk sabe a hora de atacar o espaço, de puxar para o corredor ou de descer para dar a saída. Nada no automático. E o passe vertical merece capítulo próprio: ele entrega a bola no ponto futuro, na medida para o companheiro só empurrar. São seis assistências no ano. Detalhe: canhoto, conduz bem de direita e dá profundidade mesmo com a perna invertida.
O que precisa amadurecer é o que se espera de quem ainda está em formação. O corpo é leve e pede massa para aguentar o contato, e a decisão na hora de concluir dá para afinar. Preocupação nenhuma.
No conjunto, condução e técnica bem acima do meia jovem padrão de hoje. Tem drible curto, joga em progressão e enxerga o campo com clareza, deixando os companheiros em condição de finalizar. Pela ponta não é o cara que rasga a defesa em velocidade, mas ataca o espaço e abre campo para outro avançar pela beirada.
E, mesmo verde, mostra cara: pede a bola, não some, são 351 toques, a maior marca de qualquer não-defensor do Ceará. Num clube que já trocou de treinador e patina no comando, ele virou oásis, com participação em 7 dos 15 gols da equipe.
A fila já se formou. Na última janela, Internacional, Palmeiras, Atlético-MG, Botafogo e Fluminense sondaram; o Vozão segurou e correu para renovar. Agora a multa é de R$ 18 milhões no mercado nacional e € 30 milhões no internacional.
O talento está ali, à vista, esperando corpo e maturidade emparelharem. Se o ritmo de evolução continuar, o Ceará quebra a banca no dia que decidir vender. Aí não vale dizer que ninguém avisou.
Thayllon — Atacante — Avaí

Thayllon comemorando gol pelo Avaí na Série B de 2025 – Foto: Fabiano Rateke/Avaí
Anda faltando diversão no futebol, e Thayllon é da resistência. Toda vez que ele encosta na bola, pode esperar coisa. É aquele jogador que faz você ligar o jogo do Avaí e ficar de olho em quando a bola vai chegar no pé dele. Velocidade, drible, atrevimento. E, aos 19, tudo isso sem medo, o que numa Série B truculenta não é pouca coisa.
A estrada tem cheiro de quem rodou para chegar: base do Bahia de Feira de Santana, passagem pelo Ska Brasil e desembarque no Avaí no segundo semestre de 2024. Subiu ao profissional em 2025 e foi somando minutos na Série B; neste ano deu o passo seguinte e se firmou como peça de Cauan de Almeida. Canhoto, atua muito pela direita com o pé invertido, posição que veste nele.
Em campo, a explosão chama atenção primeiro. Thayllon é veloz, ataca o espaço com critério, indo ao fundo ou cortando na diagonal, e serve tanto para abrir o jogo no campo adversário quanto para puxar o contragolpe. Só que não vive de corrida: tem fundamento de verdade, com domínio, passe e cruzamento bem trabalhados.
O drible é a assinatura. No um contra um ele leva a melhor, troca de direção com facilidade e controla a bola acima da média: o ponta clássico que encara o marcador em vez de devolver a jogada. Junte a isso a finalização, outro trunfo: bate bem de fora buscando o canto oposto, o lado esquerdo do goleiro, mas também resolve dentro da área, inclusive de primeira. Não à toa, são 7 gols e 7 assistências na temporada. A cada dois jogos e meio, ele participa de um gol.
Tem ajuste pela frente, nada fora do roteiro de um menino de 19. Mais leve, ainda sente o contato quando precisa segurar a bola de costas, e a decisão pode ficar mais letal nos momentos quentes. A recomposição é outro capítulo, hoje aliviada pela estrutura do Avaí, onde o lateral-direito carrega menos função defensiva que o esquerdo.
E fica o alerta para o futuro: para crescer de verdade, vai ter que pegar mais responsabilidade, jogar pelo lado oposto ou descer para buscar bola. Menos de três recuperações por jogo é pouco para o futebol de hoje. Boa parte disso, porém, passa pela mão do treinador e pelo momento da carreira.
Mapa de calor de Thayllon
O que ninguém discute é a curva. A evolução de 2025 para cá pula na tela. E olha que só no ano passado, ele teve que conviver com quatro treinadores no Leão da Ilha sem se perder pelo caminho, foi ganhando espaço e amadurecendo no meio do furacão. Diz muito sobre a personalidade do moleque.
O potencial é grande e a curva anima. Salvo imprevisto, Thayllon deve render para o Avaí dos dois lados: ajudando dentro de campo agora e, lá na frente, numa venda que promete. Por ora, aproveite: ponta divertido assim é raro.
Lucas Rodrigues — Volante — Goiás

Lucas Rodrigues em ação pelo Esmeraldino – Foto: Rosiron Rodrigues/Goiás
Lucas Rodrigues é desses que o Brasil teima em entregar de tempos em tempos. Tem 18 anos e joga com a cabeça de quem já viu de tudo. O que mais salta é a maturidade: num campeonato pesado, cobrado por resultado, o garoto não se esconde. Pede a bola, puxa o jogo e organiza, com um toque a cada minuto e meio na Série B.
A trajetória já tem corpo. Chegou à base do Goiás em 2021 e foi subindo degrau por degrau, com título goiano sub-17 no caminho. Estreou no profissional em 2025, ganhou minutos na Série B e, em 2026, deslanchou: titular de Daniel Paulista, homem de confiança no meio.
Os números seguem junto: 21 jogos no ano, quatro gols, uma assistência e aproveitamento de passe beirando os 90%. Para um volante de 18, é coisa de gente grande.
E é no passe que mora o melhor dele. Lucas joga de cabeça erguida, lê a linha de frente e tem coragem de ir na vertical. Não é do tipo que recebe e devolve de lado só para fingir posse. Ele rompe a linha, acha o companheiro entre os setores e acelera quando o jogo pede. Meio-campista que liga defesa e ataque num passe só é raríssimo de achar tão cedo.
A versatilidade fecha o pacote. Funciona de primeiro ou de segundo volante, recompõe, recupera e ainda surge na área para concluir. Marcou logo na estreia da temporada e seguiu pingando gols, raridade para um homem de meio.
Mapa de calor de Lucas Rodrigues
Daí a comparação que me vem natural: o jogo dele lembra muito o do Breno Bidon. O mesmo volante moderno que pensa como armador, a mesma leitura veloz, a mesma vontade de chamar a jogada para si.
Convocado para a Sub-20, está no caderninho dos olheiros, ingleses inclusive. O Goiás se mexeu para blindar o ativo: renovou e fixou multa de R$ 30 milhões no mercado nacional e cerca de R$ 100 milhões para fora.
Lapidar, claro, ainda há bastante. Mas o conjunto impressiona: juventude, técnica, passe vertical e leitura acima da média. Se mantiver a curva, o Goiás vai ter um problema dos bons para resolver. Segurar gente boa custa caro, e vender também rende.
Não para por ai
Os quatro acima são grandes destaques, mas não ache que para por aí. A lista dos que merecem sua atenção é longa: Dantas (zagueiro, Novorizontino), Ruan (zagueiro, Criciúma), Ian Lucas (meia, Athletic), Diego Caito (lateral, Goiás), Alemão (zagueiro/lateral, Novorizontino) são todos nomes que podem brilhar num grande mercado em breve.
A Série B não é saldão de fim de feira: é mina de ouro a céu aberto. Quem tiver caixa e olho que chegue antes.


