Analisamos a chegada de Tiago Splitter como técnico do Chicago Bulls, destacando sua trajetória vitoriosa e focando em seu estilo de jogo, baseado em defesa forte, aproveitamento de rebotes, transições rápidas e desenvolvimento de jovens talentos.
Tiago Splitter é apresentado como novo técnico do Chicago Bulls – Foto: Michael Hirschuber
Na última semana uma notícia colocou o basquete brasileiro nos holofotes da maior liga de basquete do mundo, mais uma vez. O ex-pivô Tiago Splitter foi anunciado, após passar por processo seletivo rigoroso, como novo head coach do Chicago Bulls, uma das mais tradicionais e vencedoras franquias da NBA.
A confirmação veio depois de algumas semanas de rumores e alarde entre a torcida brasileira, de que Tiago estava sendo cogitado para o cargo e, posteriormente veio a manchete de que o Bulls iria entrevistá-lo oficialmente para a função.
Splitter se consolida como o primeiro brasileiro a chegar ao cargo de técnico principal, de maneira efetiva, em um time da principal liga americana de basquete.
Como era Splitter como jogador?

Tiago Splitter em ação pelo San Antonio Spurs – Foto: Acervo/San Antonio Spurs
Antes de entender quem é o treinador, é importante enxergar a enorme carreira de Tiago como jogador.
Com uma carreira meteórica nas categorias de base do Ipiranga, em Blumenau (SC), por ser de uma estatura superior à média e ter uma técnica considerada refinada, o jogador nunca chegou a atuar como profissional no Brasil, tendo ido ainda com 15 anos para o basquete europeu, mais especificamente ao Saski Baskonia, time de Vitoria-Gasteiz, no País Basco, Espanha.
Tiago atuou por sete anos no time profissional do Baskonia, sendo suficiente para vencer duas vezes a Liga ACB (Campeonato Espanhol), três vezes a Copa do Rei e quatro edições da Supercopa da Espanha. A nível individual, ele foi eleito MVP da temporada regular e das finais da Liga ACB, além de integrar o time ideal da Euroliga de 2008.
Depois de jogar por sete longos anos na Espanha, disputando 135 jogos continentais, Splitter teve a camisa 21, com a qual jogou toda sua carreira no Saski Baskonia, aposentada pelo time, como forma de reconhecimento aos serviços prestados na equipe.
Em 2010, foi draftado pelo San Antonio Spurs, iniciando sua trajetória na NBA. Foram cinco anos sob o comando de Gregg Popovich, culminando no título da NBA em 2014, atuando como um dos principais jogadores do elenco, ao lado de estrelas como Tim Duncan, Manu Ginóbili, Kawhi Leonard e Tony Parker.
Na seleção Brasileira, o jogador dominou o garrafão por mais de uma década ao lado de Nenê, vencendo duas edições da Copa América e conquistando uma medalha de ouro dos jogos Pan-Americanos, em Santo Domingo, 2003. Além disso, o pivô disputou uma edição dos Jogos Olímpicos em Londres, 2012, e três Copas do Mundo FIBA.
Mas de onde veio a carreira de técnico de Tiago?
Alguns podem se questionar que Splitter chegou à função meio que “do nada”, mas a carreira como técnico do ex-jogador da seleção vem decolando de maneira igualmente consistente e veloz. Há menos de 10 anos atrás, em 2018, ele foi contratado como scout do Brooklyn Nets, onde menos de um ano depois, em 2019, foi promovido à assistente técnico, função que ocupou até 2023.
Durante o seu tempo no Nets, Splitter teve como principais “jóias” a lapidar o pivô Nic Claxton, draftado em 2019 e que, nas mãos de Tiago, se transformou em um dos melhores defensores de garrafão da NBA à época. Além dele, Jarret Allen teve ensinamentos de fundamentos e posicionamento defensivos com o brasileiro. Por fim, outro jovem talento desenvolvido por ele na época de Nets foi Day’ron Sharpe, que também buscou intensificar seu jogo defensivo físico e evoluir seu fundamento de rebotes.
Inclusive, um desses talentos irá integrar o time de Splitter no Bulls: Nic Claxton foi solicitado pelo novo treinador, que teve seu pedido atendido, através de uma troca tripla com o Minnesota Timberwolves, que enviou Mo Gueye para os Nets, que cedeu Claxton para os Bulls e enviou Julius Randle para a franquia dos lobos, onde atuará ao lado de Anthony Edwards.
Depois da experiência como assistente técnico dos Nets, Tiago acumulou função dupla, ao integrar não só a equipe técnica de Ime Udoka no Houston Rockets, mas também a mesma posição na seleção brasileira de Aleksandar Petrovic, onde colaborou para a classificação da equipe masculina aos jogos olímpicos de Paris, em 2024. Nesse período, também comandou o time sub-23 do Brasil na conquista do título no torneio Global Jam, em 2022.
A primeira posição de destaque: o êxito no basquete europeu
Após uma primeira fase sólida no basquete americano e na seleção brasileira, Tiago foi contratado em 2024 para sua primeira posição como treinador principal do Paris Basketball, jovem clube fundado em 2018, mas que, além de disputar a primeira divisão da Liga Francesa, já compete também na maior liga do continente: a Euroliga.
No Paris, Splitter foi vencedor e teve duas grandes conquistas: o Campeonato Francês e a Copa da França de 2025. No time da capital francesa, Splitter imprimiu sua marca na equipe, que teve um excelente aproveitamento no ano: 64.5%. Foram 79 jogos, com 51 vitórias e apenas 28 derrotas. Mas, aqui começa-se a perceber qual o enfoque, que traduz muito do que o jogador que vestiu a camisa 22 do Spurs fazia em quadra.
O time, apesar de ter boa média de pontos por jogo (90,6), tinha como uma das suas fortalezas o alto número médio de rebotes apanhados por jogo: 37,3, considerado alto para o padrão FIBA e colocando o Paris num patamar de elite do basquete europeu, nesse quesito. Aliado a isso, a equipe flutuava entre 55 e 56% no aproveitamento dos arremessos de curta distância, padrão considerado adequado para times que disputam basquete no modelo FIBA.
| Estatísticas do Paris Basketballl | Média / Total |
|---|---|
| *Dados correspondentes à temporada sob o comando de Tiago Splitter | |
| Aproveitamento no ano | 64,5% |
| Jogos disputados | 79 |
| Vitórias | 51 |
| Derrotas | 28 |
| Pontos por jogo | 90,6 |
| Rebotes por jogo | 37,3 |
| Arremessos de curta distância | 55% – 56% |
Começava a ficar claro que Splitter iria imprimir, como seu principal estilo de liderança, o equilíbrio entre um garrafão forte defensivamente com um basquete de transição rápido e que conclui jogadas embaixo do aro, dentro do garrafão, que normalmente fica congestionado em jogadas de transição lenta.
Um novo desafio nos EUA e a oportunidade no Portland

Splitter comandando o Portland Trail Blazers na última temporada – Foto: Amanda Loman/AP Photo
Após uma curta passagem pela Europa, apenas um ano, novamente os caminhos levaram o brasileiro de volta para a NBA. Chauncey Billups teve sua curiosidade despertada pelo estilo alternativo de conduzir a equipe de Paris, além de ficar surpreso com os altos números conquistados por lá, e viajou pessoalmente até a França para se adiantar ao assédio de outros times da liga em cima daquele que considerava o assistente técnico ideal para o Portland.
Após uma boa conversa entre os dois, Tiago retornou à NBA em junho de 2025, para assumir o cargo de assistente técnico do Portland Trail Blazers, onde permaneceu nessa posição por 4 meses. O objetivo de Billups com Splitter era que ele desempenhasse o mesmo papel que cumpriu no Nets: desenvolver o potencial defensivo dos jogadores do elenco. Mas, dessa vez, ele foi além.
Por ter um comportamento considerado exemplar, e também falar “a mesma língua” dos jogadores, Splitter conseguiu conquistar todo o elenco, com quem dividia seu conhecimento não apenas da carreira, mas também de sua grande experiência no basquete europeu, cada vez mais influente na NBA.
Após o período como assistente técnico, um escândalo envolvendo o treinador Billups acabou afastando-o do cargo e abrindo espaço para que Tiago assumisse a função de forma interina. Foi exatamente aí que o ex-jogador mostrou a que veio.
O Portland Trail Blazers, sob seu comando, teve a melhor campanha da equipe na liga desde 2021, com 42 vitórias e 40 derrotas, classificando o time para os playoffs.
| Time | Jogos | Pontos | Rebotes | Assistências | Roubos | FG% | 3P% | FT% | TO |
|---|---|---|---|---|---|---|---|---|---|
| *Estatísticas Principais da Temporada Regular 2025-26. | |||||||||
| Portland Trail Blazers | 82 | 115.5 | 46.0 | 25.1 | 8.3 | 45.3% | 34.3% | 76.5% | 17.3 |
| Ranking na Liga | – | 17º | 6º | 23º | 18º | 29º | 28º | 24º | 30º |
| Adversários | 82 | 115.8 | 43.0 | 26.4 | 10.8 | 47.1% | 35.8% | 79.0% | 15.6 |
| Ranking (Adversários) | – | 16º | 11º | 13º | 30º | 16º | 15º | 21º | 7º |
A principal marca de Splitter naquele time foi a transformação na maneira de jogar, trazendo muito mais intensidade defensiva, pressionando linhas de passe e forçando erros dos adversários. Essa mudança de mentalidade colocou o Blazers entre os 10 melhores pontuadores de segunda oportunidade da NBA naquele ano, levando jogadores como Donovan Clingan e Deni Avdija para sua primeira indicação ao All-Star Game.
Além de tudo isso, comandando o Portland no confronto contra o San Antonio Spurs, Splitter se transformou no primeiro técnico sul-americano a conquistar uma vitória nos Playoffs da NBA. Até hoje, Tiago é lembrado com carinho pelos torcedores do time de Oregon.
Estatísticas do primeiro confronto de Playoffs de Tiago Splitter
E o que podemos esperar de Tiago em Chicago?
Para entender o que o torcedor dos Bulls pode esperar da equipe sob o comando de Splitter, construo meu raciocínio em duas frentes. A primeira, é sob a ótica do histórico do treinador, focado em desenvolver jovens jogadores para um novo padrão de jogo, com mais força defensiva e um jogo de transição rápida, e em um alto aproveitamento de oportunidades de segunda bola.
Pesquisando pelas opiniões de especialistas, a crença é de que o novo treinador deve forçar muito os treinos para que a equipe use e abuse do ótimo controle de bola de Josh Giddey, além de trabalhar intensamente uma nova cultura dentro do time, desenvolvendo uma relação de maior confiança com os jogadores dentro do vestiário e elevando o patamar de cobrança por um nível competitivo maior da franquia para a próxima temporada.
Já na parte de desenvolvimento de jovens jogadores, alguns nomes se destacam na imprensa americana como potenciais candidatos a usufruir do conhecimento do brasileiro nos bastidores.
- O ala-pivô Caleb Wilson, selecionado como a quarta escolha do último draft, sai na frente como o maior beneficiado do novo comando dos Bulls, segundo a imprensa americana. Com 2,08m, ele é considerado o melhor prospecto defensivo da classe de 2025 do Draft, tendo em Tiago o seu maior aliado para não apenas desenvolver a já boa parte defensiva de Wilson, mas também polir seu jogo ofensivo, evoluindo em rebotes e criando oportunidades de segunda bola para o time.
- O ala Matas Buzelis, já considerado por Splitter como uma de suas prioridades máximas na franquia e já o colocando como pilar do futuro para os Bulls. Buzelis tem um instinto pontuador nato, mas precisa evoluir sua consistência física e aproveitamento em rebotes nos dois lados da quadra, a fim de colaborar com o jogo de transição proposto pelo novo treinador.
- O ala-pivô Noa Essengue, francês de apenas 19 anos, ainda é considerado bastante “cru” para os padrões da liga americana, mas já possui um conjunto físico acima da média para sua idade, do qual o novo treinador deve se apropriar para trabalhar a evolução do jovem prospecto.
- Por fim, Josh Giddey. Apesar de já ter um nome mais bem estabelecido na liga, o armador tem apenas 23 anos ainda e deve ser o diamante de Tiago Splitter no elenco. Com ótima visão de jogo e boa velocidade de transição de quadra, Giddey deve ser o principal protagonista do estilo de jogo estabelecido pelo novo head coach dos Bulls. Será uma nova responsabilidade para o jovem australiano.
Dentro da realidade, ainda não se espera que o Chicago Bulls faça uma temporada de contender sob o comando de seu novo treinador. Mas, torcida e imprensa locais estão bastante entusiasmados com a promessa de que novos ares irão circular pelos arredores do United Center.
Splitter pode ser a figura central de uma nova filosofia de trabalho na cidade que coroou Phil Jackson e Michael Jordan. Mas, é claro, viver sob a sombra do que já foi a maior franquia da NBA é um fardo pesado para o brasileiro carregar. Espero que ele use a seu favor o bom relacionamento dentro da liga e seu vasto conhecimento técnico, especialmente defensivo, para evoluir e recolocar no mapa um dos mais tradicionais times da NBA.
Agora, é dar tempo ao tempo.


