Mais que futebol: a amizade histórica entre Brasil e Haiti

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Escrito por: Gabriel Gonçalves, Redator senior | Revisado por: Carla Leal, Revisora
Publicado jun 18, 2026 - Última atualização jun 18, 2026 0

foto de brasil x haiti

Nesta sexta-feira (19), a partir das 19h30, Brasil e Haiti se enfrentam pela segunda rodada do Grupo C da Copa do Mundo de 2026.

A bola rola diretamente do Lincoln Financial Field, na Philadelphia, nos EUA. É o marca da primeira vez em que as seleções se enfrentam em Copas.

Porém, fora das quatro linhas, a relação entre as equipes já tem mais de duas décadas de história, com registros de solidariedade, futebol e um raro vínculo afetivo entre nações tão distantes geograficamente.

Brasil x Haiti: o Jogo da Paz

A história mais simbólica entre os países – e entre as seleções – aconteceu no dia 18 de agosto de 2004, no Estádio Sylvio Cator, em Porto Príncipe, capital do Haiti.

jogo da paz

Fernando Maia.

Chamado de Jogo da Paz, levou a Seleção Brasileira, então campeã da Copa de 2002, a enfrentar o Haiti, na época, a 95ª seleção do ranking mundial da FIFA.

O objetivo do jogo amistoso era nobre: incentivar a campanha de desarmamento no país. que passava por uma guerra civil desde janeiro de 2004, após a comemoração do bicentenário da independência.

Troca de ingressos por armas

O jogo marcou a história. Isso porque os ingressos foram distribuídos em troca de armas de foto. Então, o público pôde trocar armas por ingressos para ver a seleção campeã do mundo.

Ao todo, cerca de 15 mil pessoas foram para o estádio, lotando as arquibancadas. A Seleção Brasileira foi recebida por uma multidão de torcedores, desfilando pelos veículos de paz da ONU nas ruas.

Formação do Brasil

Em campo, o Brasil escalou os seguintes jogadores como titulares:

  • Júlio César; Belleti, Juan, Roque Júnior e Roberto Carlos; Juninho Pernambucano, Gilberto Silva, Edu e Roger; Ronaldinho Gaúcho e Ronaldo.
foto do jogo da paz

Fernando Maia.

O Brasil ainda trouxe a campo os seguintes jogadores:

  • Fernando Henrique, Cris, Adriano Correia, Magrão, Renato, Pedrinho, Nilmar e Adriano.

O jogo

O Brasil venceu o Haiti por 6×0, com dois gols de Roger Flores (minutos 19 e 41), três de Ronaldinho Gaúcho (minutos 32, 66 e 81) e Nilmar aos 85′.

Mais um pouco de contexto pro jogo

De acordo com informações da Globo e de outros portais jornalísticos, a ideia do Brasil teve a intenção de aumentar a influência internacional do Brasil, em busca de uma vaga no Conselho da ONU.

foto do jogo da paz no haiti

Fernando Maia.

Por isso, o Brasil conseguiu liderar a missão e convencer os jogadores, muito motivados pela paixão da torcida haitiana pela Seleção Brasileira.

O time chegou no Haiti apenas duas horas antes do confronto, justamente por medida de segurança, para sair diretamente para o jogo e voltar.

O Jogo da Paz conseguiu pausar o confronto, pelo menos durante a partida, e não é o único ponto de encontro entre os países.

Uma missão de paz liderada pelo Brasil

Próximo do amistoso, o Conselho de Segurança da ONU cria a Missão das Nações Unidas para a Estabilização no Haiti (MINUSTAH), em resposta à grave crise política que levou à saída do então presidente Jean-Bertrand Aristide.

O Brasil assumiu a liderança do componente militar da missão desde sua criação, mantendo o maior contingente de tropas durante boa parte dos 13 anos de operação, durou até 2017.

O documentário Bombagai (2018), produzido pelo Exército Brasileiro, mostrou como a missão construiu uma relação de amizade e confiança entre militares brasileiros e população haitiana.

A partir disso, o Brasil produziu uma imagem altamente positiva no país caribenho, com muitos relatos de momentos emocionantes vividos por oficiais no país.

A comunidade haitiana no Brasil

Em 2010, o Haiti viveu um terremoto de proporções devastadoras. Estima-se que o evento vitimou até mais de 300 mil pessoas, causando mais uma crise econômica grave no país.

Após o evento, o Brasil viu chegar uma onda significativa de imigrantes haitianos. De acordo com o Boletim das Migrações do Governo Federal, o fluxo total foi de mais de 183 mil pessoas para o Brasil.

Assis Brasil e Brasiléia (AC), e Tabatinga (AM) são as principais cidades de chegada dos haitianos no Brasil, que receberam ações de acolhimento, emissão de documentos e cursos de português.

A relação desigual dentro de campo

De acordo com as palavras do próprio governo brasileiro, a relação entre Haiti e Brasil é amplamente amistosa, com um sentimento de gratidão por parte dos haitianos.

Porém, dentro de campo, a relação é diferente. O Brasil venceu os três jogos: 4×0 em 1974, 6×0 no próprio Jogo da Paz e 7×1 na Copa América de 2016.

O Haiti estreou com derrota para a Escócia na abertura de sua primeira participação em Copas, enquanto o Brasil empatou com Marrocos.

De acordo com as projeções da Opta, supercomputador de tendências no futebol, o Brasil é pleno favorito para vencer o confronto, com mais de 87% de chance.

Pela pressão em cima da equipe brasileira, a partir do momento em que a bola rolar, o jogo pode até ser tenso. Mesmo assim, o público deve perceber muito respeito por parte dos jogadores e treinadores haitianos.

Dicas de documentários e livros para entender a relação Brasil-Haiti

Veja dicas de documentários para estudar mais sobre a história:

  • O Dia em que o Brasil Esteve Aqui (2005): Com direção de Caito Ortiz e João Dornelasa, acompanha a delegação brasileira em 2004, mostrando toda a comoção no povo nas ruas. O documentário está disponível no catálogo da MUBI.
  • Bombagai (2012): O filme já citado mostra a rotina da tropa e a relação diária com a população local, especialmente pós-terremoto.

Veja livros e artigos:

  • O Brasil no Haiti: a maior ação de política externa e militar desde a Segunda Guerra (Jovino Pereira da Fonseca Neto): Um livro excelente para entender o jogo de xadrez diplomático. Ele explica o porquê de o Brasil ter aceitado essa missão gigantesca da ONU e como isso moldou a nossa política externa na época.
  • Migração Haitiana e o Racismo no Brasil: Colonialismo, Imperialismo e Resistências (Camila Rodrigues Estrela): Já que você abordou a rota de chegada dos haitianos pelo Norte e o acolhimento em São Paulo, este livro aprofunda a vivência real dessas pessoas ao tentarem reconstruir a vida no Brasil. É ótimo para entender o choque cultural e a resiliência da comunidade.
  • Brasil e Haiti: reflexões sobre os 10 anos da missão de paz (Instituto Igarapé / Eduarda Passarelli Hamann): Se você quiser dados rápidos e análises mais curtas sem ler um livro inteiro, essa é uma coletânea de artigos fantástica que avalia os acertos e erros da MINUSTAH.

Uma amizade além do futebol

Seja qual for o resultado no Lincoln Financial Field, o confronto carrega um peso que transcende as estatísticas.

De um lado, o Brasil busca consolidar sua força ofensiva no Grupo C; do outro, o Haiti tenta sobreviver ao ímpeto de um adversário que, historicamente, não costuma poupar gols no confronto direto.

Dentro das quatro linhas, a busca pelos três pontos será implacável, mas quando o apito final soar, o que prevalecerá é o respeito mútuo e o laço inquebrável que o futebol ajudou a eternizar.

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