
Nesta sexta-feira (19), a partir das 19h30, Brasil e Haiti se enfrentam pela segunda rodada do Grupo C da Copa do Mundo de 2026.
A bola rola diretamente do Lincoln Financial Field, na Philadelphia, nos EUA. É o marca da primeira vez em que as seleções se enfrentam em Copas.
Porém, fora das quatro linhas, a relação entre as equipes já tem mais de duas décadas de história, com registros de solidariedade, futebol e um raro vínculo afetivo entre nações tão distantes geograficamente.
Brasil x Haiti: o Jogo da Paz
A história mais simbólica entre os países – e entre as seleções – aconteceu no dia 18 de agosto de 2004, no Estádio Sylvio Cator, em Porto Príncipe, capital do Haiti.

Fernando Maia.
Chamado de Jogo da Paz, levou a Seleção Brasileira, então campeã da Copa de 2002, a enfrentar o Haiti, na época, a 95ª seleção do ranking mundial da FIFA.
O objetivo do jogo amistoso era nobre: incentivar a campanha de desarmamento no país. que passava por uma guerra civil desde janeiro de 2004, após a comemoração do bicentenário da independência.
Troca de ingressos por armas
O jogo marcou a história. Isso porque os ingressos foram distribuídos em troca de armas de foto. Então, o público pôde trocar armas por ingressos para ver a seleção campeã do mundo.
Ao todo, cerca de 15 mil pessoas foram para o estádio, lotando as arquibancadas. A Seleção Brasileira foi recebida por uma multidão de torcedores, desfilando pelos veículos de paz da ONU nas ruas.
Formação do Brasil
Em campo, o Brasil escalou os seguintes jogadores como titulares:
- Júlio César; Belleti, Juan, Roque Júnior e Roberto Carlos; Juninho Pernambucano, Gilberto Silva, Edu e Roger; Ronaldinho Gaúcho e Ronaldo.

Fernando Maia.
O Brasil ainda trouxe a campo os seguintes jogadores:
- Fernando Henrique, Cris, Adriano Correia, Magrão, Renato, Pedrinho, Nilmar e Adriano.
O jogo
O Brasil venceu o Haiti por 6×0, com dois gols de Roger Flores (minutos 19 e 41), três de Ronaldinho Gaúcho (minutos 32, 66 e 81) e Nilmar aos 85′.
Mais um pouco de contexto pro jogo
De acordo com informações da Globo e de outros portais jornalísticos, a ideia do Brasil teve a intenção de aumentar a influência internacional do Brasil, em busca de uma vaga no Conselho da ONU.

Fernando Maia.
Por isso, o Brasil conseguiu liderar a missão e convencer os jogadores, muito motivados pela paixão da torcida haitiana pela Seleção Brasileira.
O time chegou no Haiti apenas duas horas antes do confronto, justamente por medida de segurança, para sair diretamente para o jogo e voltar.
O Jogo da Paz conseguiu pausar o confronto, pelo menos durante a partida, e não é o único ponto de encontro entre os países.
Uma missão de paz liderada pelo Brasil
Próximo do amistoso, o Conselho de Segurança da ONU cria a Missão das Nações Unidas para a Estabilização no Haiti (MINUSTAH), em resposta à grave crise política que levou à saída do então presidente Jean-Bertrand Aristide.
O Brasil assumiu a liderança do componente militar da missão desde sua criação, mantendo o maior contingente de tropas durante boa parte dos 13 anos de operação, durou até 2017.
O documentário Bombagai (2018), produzido pelo Exército Brasileiro, mostrou como a missão construiu uma relação de amizade e confiança entre militares brasileiros e população haitiana.
A partir disso, o Brasil produziu uma imagem altamente positiva no país caribenho, com muitos relatos de momentos emocionantes vividos por oficiais no país.
A comunidade haitiana no Brasil
Em 2010, o Haiti viveu um terremoto de proporções devastadoras. Estima-se que o evento vitimou até mais de 300 mil pessoas, causando mais uma crise econômica grave no país.
Após o evento, o Brasil viu chegar uma onda significativa de imigrantes haitianos. De acordo com o Boletim das Migrações do Governo Federal, o fluxo total foi de mais de 183 mil pessoas para o Brasil.
Assis Brasil e Brasiléia (AC), e Tabatinga (AM) são as principais cidades de chegada dos haitianos no Brasil, que receberam ações de acolhimento, emissão de documentos e cursos de português.
A relação desigual dentro de campo
De acordo com as palavras do próprio governo brasileiro, a relação entre Haiti e Brasil é amplamente amistosa, com um sentimento de gratidão por parte dos haitianos.
Porém, dentro de campo, a relação é diferente. O Brasil venceu os três jogos: 4×0 em 1974, 6×0 no próprio Jogo da Paz e 7×1 na Copa América de 2016.
O Haiti estreou com derrota para a Escócia na abertura de sua primeira participação em Copas, enquanto o Brasil empatou com Marrocos.
De acordo com as projeções da Opta, supercomputador de tendências no futebol, o Brasil é pleno favorito para vencer o confronto, com mais de 87% de chance.
Pela pressão em cima da equipe brasileira, a partir do momento em que a bola rolar, o jogo pode até ser tenso. Mesmo assim, o público deve perceber muito respeito por parte dos jogadores e treinadores haitianos.
Dicas de documentários e livros para entender a relação Brasil-Haiti
Veja dicas de documentários para estudar mais sobre a história:
- O Dia em que o Brasil Esteve Aqui (2005): Com direção de Caito Ortiz e João Dornelasa, acompanha a delegação brasileira em 2004, mostrando toda a comoção no povo nas ruas. O documentário está disponível no catálogo da MUBI.
- Bombagai (2012): O filme já citado mostra a rotina da tropa e a relação diária com a população local, especialmente pós-terremoto.
Veja livros e artigos:
- O Brasil no Haiti: a maior ação de política externa e militar desde a Segunda Guerra (Jovino Pereira da Fonseca Neto): Um livro excelente para entender o jogo de xadrez diplomático. Ele explica o porquê de o Brasil ter aceitado essa missão gigantesca da ONU e como isso moldou a nossa política externa na época.
- Migração Haitiana e o Racismo no Brasil: Colonialismo, Imperialismo e Resistências (Camila Rodrigues Estrela): Já que você abordou a rota de chegada dos haitianos pelo Norte e o acolhimento em São Paulo, este livro aprofunda a vivência real dessas pessoas ao tentarem reconstruir a vida no Brasil. É ótimo para entender o choque cultural e a resiliência da comunidade.
- Brasil e Haiti: reflexões sobre os 10 anos da missão de paz (Instituto Igarapé / Eduarda Passarelli Hamann): Se você quiser dados rápidos e análises mais curtas sem ler um livro inteiro, essa é uma coletânea de artigos fantástica que avalia os acertos e erros da MINUSTAH.
Uma amizade além do futebol
Seja qual for o resultado no Lincoln Financial Field, o confronto carrega um peso que transcende as estatísticas.
De um lado, o Brasil busca consolidar sua força ofensiva no Grupo C; do outro, o Haiti tenta sobreviver ao ímpeto de um adversário que, historicamente, não costuma poupar gols no confronto direto.
Dentro das quatro linhas, a busca pelos três pontos será implacável, mas quando o apito final soar, o que prevalecerá é o respeito mútuo e o laço inquebrável que o futebol ajudou a eternizar.


