Enquanto se prepara para enfrentar a Noruega nas oitavas de final da Copa do Mundo, Matheus Cunha vive o melhor momento da carreira.
Aos 27 anos, o camisa 9 da Seleção Brasileira chega ao Mundial em alta após boas temporadas no Wolverhampton e a transferência de mais de 74 milhões de euros para o Manchester United.
Fora dos gramados, porém, o atacante encontrou no jiu-jítsu uma ferramenta para evoluir física e mentalmente. O trabalho, no entanto, precisava ser feito sem colocar em risco a carreira de um dos principais jogadores da Seleção.
Há alguns meses, Cunha passou a treinar com Lúcio “Lagarto” Rodrigues, faixa-preta, campeão mundial e multicampeão europeu radicado na Inglaterra.
Acerto Pessoal Lúcio Rodrigues
Em entrevista exclusiva ao Estádio Total, o treinador revelou os bastidores dessa parceria.
Como começou a parceria
Quando decidiu iniciar no jiu-jítsu, Matheus Cunha tinha uma preocupação: encontrar alguém que pudesse ensiná-lo sem aumentar o risco de lesões.
“Ele estava procurando alguém com quem pudesse treinar e não colocasse a carreira dele em risco.”
Segundo Lagarto, a busca passou até pela CBF.
“Ele entrou em contato com o Samir Xaud, presidente da CBF, e daí o Samir entrou em contato com o Rodrigo, e o Rodrigo falou que a única pessoa que poderia fazer isso com o Cunha sou eu. O Cunha entrou em contato comigo.”
O maior desafio: proteger um atleta de elite
Ensinar jiu-jítsu nunca foi o principal desafio. O trabalho começou com outra missão: adaptar a modalidade à rotina de um jogador que disputa competições em alto nível.
“O Cunha é um atleta muito explosivo, muito forte. Ele quer se testar.”
Para Lagarto, a grande questão era encontrar o equilíbrio entre evolução técnica e segurança.
“E como tu coloca um atleta do nível dele de futebol para se testar no jiu-jítsu de forma que ele não se exponha a lesões? Essa é a pergunta de um milhão de dólares.”
Foi assim que nasceu um treinamento totalmente personalizado.
“Eu desenvolvi um treino pra ele, a gente foca muito em técnica.”
Cada treino muda de acordo com a semana
As sessões nunca seguem um roteiro fixo. Antes mesmo de subir no tatame, treinador e aluno conversam sobre a rotina da semana.
Instagram Lúcio Rodrigues
“Sempre antes do treino a gente almoça e tem um bate-papo. Eu entendo como foi a semana e o dia dele, como está se sentindo emocionalmente e fisicamente.”
Só depois disso, Lagarto define como será o trabalho.
“Daí eu vou ajustando o treino. Tem dia de mais mobilidade, outros técnicos e outro dia muito mais específico, que é o que ele mais gosta.”
Todo o treinamento é individual.
“E ele faz só comigo.”
Um tatame exclusivo dentro de casa
Os treinos acontecem na própria casa do atacante, que montou um espaço exclusivo para a modalidade.
“Os treinos são na casa dele. Ele montou um tatame em casa, ao lado da academia.” “É na parte de baixo, perto da musculação e da sauna. Ficou bem legal o tatame, e a gente treina lá.”
Para preservar a integridade física do atacante, Cunha nunca participa de treinos tradicionais de academia.
“Eu vou cadenciando ele para não ter nenhuma surpresa.” “Só treina nós dois, de forma alguma com outras pessoas.”
Em alguns momentos, um amigo do atacante participa apenas para auxiliar na execução das posições.
“Ele tem um amigo, o Léo, que é surfista profissional. O Léo é importante, ele ajuda ele sem ego. Ele já treinou um pouco e fica de ‘boneco’ ali, me ajudando a fazer as posições.”
“Botar o Cunha no chão é igual tentar derrubar um gato”
Não é só a força que impressiona Lagarto, mas também o equilíbrio.
“Faço vários treinos com o Cunha, mesmo que ele não note, eu fico testando ele o tempo todo. Ele tem muito equilíbrio. Ele é duro, explosivo pra caramba e tem um equilíbrio, uma base sinistra.
A comparação escolhida por Lagarto resume bem a dificuldade.
Acervo Pessoal Lúcio Rodrigues
“Botar ele de costas no chão é difícil. Já tentou botar gato de costas no chão? No jiu-jítsu refinado, sem fazer força, é muito difícil.”
Mais do que força física
Para o treinador, os benefícios vão muito além do condicionamento físico.
“O jiu-jítsu é muito mais que uma arte marcial, é um estilo de vida. Você se conhecer e saber do que é capaz te dá uma segurança que você usa pra vida inteira.”
Lagarto acredita que isso também faz diferença dentro de campo.
“O zagueiro vai querer bater de frente e tirar onda com ele, a autosegurança dele tá lá em cima.”
Acervo Pessoal Lúcio Rodrigues
“Quero ser ovelhinha”
Apesar da fama internacional, Cunha nunca pediu qualquer privilégio. Pelo contrário.
“Ele fala: ‘Mestre, quero a filosofia do esporte, entender o respeito, o caminho. Eu quero realmente ser ovelhinha, um passo de cada vez, não quero tratamento especial. Quero seguir a cartilha.'”
A postura surpreendeu até mesmo o treinador.
“Ele é um aluno exemplar. A faixa que mais demora para as pessoas pegarem é a branca. Um cara na posição social e esportiva dele se colocar na posição de faixa branca, de aprender… Ele é diferenciado.”
Mesmo depois de trabalhar com diversos atletas, o treinador diz nunca ter vivido uma experiência semelhante.
“Já tive experiências com jogadores de futebol, mas com esse nível o Cunha é o primeiro.”
“Ele não deixou de ser brasileiro”
A exemplo de muitos jogadores do futebol brasileiro, Cunha não chegou a jogar no país, fazendo toda a sua carreira profissional na Europa.
Porém, Lagarto diz que Matheus Cunha faz questão de manter os costumes brasileiros dentro de casa.
“O Matheus, mesmo morando fora, não deixa de ser brasileiro em tudo. Todo mundo que trabalha com ele é só brasileiro.”
O treinador lembra, em tom bem-humorado, de uma situação que resume esse lado do atacante.
“Falei com ele: ‘Me dá um chá inglês aí’. Ele ficou três horas me sacaneando, me chamando de inglês. Na casa dele não tinha um saco de chá. Eu compro e levo meu chá quando vou lá.”
Segundo Lagarto, até o cardápio faz qualquer brasileiro se sentir em casa.
“Na casa dele é só bobó de camarão. Parece que você está no Nordeste.”
O retorno ao tatame
Apesar de brincar com o filho nos stories, durante a Copa do Mundo, Matheus Cunha deu uma pausa nos treinos para manter o foco total na Seleção Brasileira. Terminado o Mundial, a rotina ao lado de Lagarto será retomada na Inglaterra.
Instagram Cunha
Até lá, os torcedores seguirão acompanhando apenas o que acontece dentro das quatro linhas.
O que poucos enxergam é que parte do equilíbrio, da explosão e da confiança demonstrados pelo camisa 9 também começou a ser construída sobre um tatame, onde ele escolheu recomeçar como qualquer outro faixa branca.
Depois do surfe, vem o jiu-jítsu?
Instagram Cunha
O surfe já ganhou espaço nas comemorações de Matheus Cunha. Se depender de Lagarto, o jiu-jítsu pode ser o próximo.
“Ia ser irado, vou botar essa pira nele. Eu tava imaginando qual comemoração poderia ser. Amarrar a faixa seria legal.”
O horário do jogo do Brasil é no próximo domingo, dia 5 de julho, às 17h.
Veja a entrevista na íntegra:



Eu jamais poderia imaginar essa conexão! Que incrível! Que entrevista incrível! Adorei, deu até vontade de me matricular no jiu-jítsu kkkkkkk