
Rafael Ribeiro / CBF
O placar de 3 a 0 sobre o Haiti colocou o Brasil na liderança do Grupo C. O interessante é que as análises do jogo mostram algo a mais que só uma vitória tranquila.
Após o empate em 1×1 contra Marrocos na estreia, a Seleção Brasileira entrou em campo muito pressionada, precisando dar resposta em campo.
Em termos de resultado, a resposta veio. Há alguns indicadores que mostram uma evolução importante na forma de atacar. Porém, o segundo tempo é mais preocupante.
Se Carlo Ancelotti precisa de uma equipe capaz de controlar toda a partida, a seleção terá que evoluir. Entenda mais sobre os números e as projeções para o futuro na Copa do Mundo de 2026.
Um primeiro tempo dominante em praticamente todos os aspectos
Os primeiros 45 minutos foram, até aqui, o melhor período do Brasil na Copa do Mundo.
A Seleção terminou a etapa inicial com seis finalizações, cinco delas no alvo, além de seis chutes realizados dentro da área.
O Haiti não finalizou nenhuma vez antes do intervalo. A Opta, empresa especializada em stats, destacou que foi a primeira vez que isso aconteceu desde o jogo contra a Escócia, em 1990.
O controle territorial também foi evidente, com 251 passes certos, 62% da posse de bola e 32 chegadas ao terço final do campo.
Ainda conseguiu 12 laterais ofensivos e um volume constante de pressão após a perda da posse.
Mesmo sendo a equipe que mais controlava o jogo, o Brasil recuperou a bola 24 vezes, fez seis interceptações e registrou seis desarmes.
São números elevados para um time que passou a maior parte do tempo atacando e mostram uma capacidade de pressão imediata que não apareceu com a mesma intensidade diante de Marrocos.
O dado que mais chama atenção: qualidade das chances
Talvez o número mais importante da partida seja a relação entre volume e qualidade.
O Brasil produziu 1,5 xG com apenas oito finalizações ao longo dos 90 minutos. Isso significa que as oportunidades criadas foram, em média, muito perigosas.
Os mapas de finalização ajudam a explicar esse cenário.
Nada menos que 88% dos chutes brasileiros aconteceram dentro da área, enquanto 13% vieram da pequena área. Nenhuma finalização foi registrada de fora da área.
É um indicador raro em jogos de Copa do Mundo. Em vez de acumular tentativas de média ou longa distância, o Brasil conseguiu chegar repetidamente em zonas de alta probabilidade de gol.
Contra Marrocos, a equipe teve mais dificuldade para transformar posse de bola em oportunidades claras. Contra o Haiti, as chegadas foram menos numerosas, mas muito mais eficientes.
Vinícius Júnior foi o centro do ataque brasileiro
Os mapas ofensivos mostram que o Brasil distribuiu seus ataques de forma relativamente equilibrada: 41% pelo lado esquerdo, 35% pelo direito e 24% pela faixa central.
Mas quando o assunto são as finalizações, o desenho muda completamente.
Cerca de 63% dos chutes surgiram pelo lado esquerdo, enquanto a direita não gerou nenhuma finalização direta.
Vale pontuar que os gols de Endrick e Raphinha e a própria finalização de Raphinha não entram para a contagem oficial por conta do impedimento marcado em campo.
Na prática, isso significa que boa parte das jogadas mais perigosas passou por Vinícius Júnior.
O atacante marcou um gol, deu uma assistência para Matheus Cunha e chegou a três participações diretas em gols nos dois primeiros jogos da Copa. Mais do que os números individuais, ele foi o principal ponto de desequilíbrio da equipe.
O Brasil até circulou a bola pelos dois lados, mas foi pela esquerda que encontrou os espaços capazes de transformar posse em perigo.
Matheus Cunha aproveitou a oportunidade
Outro ponto positivo para Ancelotti foi a atuação de Matheus Cunha.
Além dos dois gols, o atacante ofereceu uma movimentação diferente da apresentada por Igor Thiago na estreia.
Seus deslocamentos entre os zagueiros ajudaram a criar profundidade e abriram corredores para Vinícius, Paquetá e os jogadores que vinham de trás.
O resultado foi uma equipe mais vertical e mais agressiva do que aquela vista contra Marrocos.
Não por acaso, os três gols foram construídos antes do intervalo, quando o Brasil conseguiu atacar com velocidade e aproveitar os espaços deixados pelo Haiti.
O segundo tempo traz um alerta
Se o primeiro tempo foi praticamente perfeito, a etapa final mostra que ainda existem pontos a corrigir.
Com a vantagem construída, o Brasil reduziu drasticamente sua produção ofensiva. Foram apenas duas finalizações após o intervalo e 21 entradas no terço final, contra 32 registradas nos primeiros 45 minutos.
Ao mesmo tempo, o Haiti cresceu. Os haitianos terminaram o segundo tempo com sete finalizações, três delas no alvo, além de três escanteios e 30 entradas no terço final.
Isso é apenas uma a menos do que o Brasil conseguiu em toda a primeira etapa.
Os passes também ficaram equilibrados. Enquanto o Brasil completou 243 na etapa final, o Haiti chegou a 225.
A diferença é que, quando o jogo mudou de direção, a Seleção conseguiu responder defensivamente. O time venceu 66% dos duelos aéreos, realizou 11 cortes, 15 desarmes, 16 recuperações de bola e viu Alisson fazer três defesas importantes.
Os números mostram uma equipe que soube se defender quando perdeu parte do controle da posse, mas também indicam que o Haiti encontrou espaços que simplesmente não existiram antes do intervalo.
A comparação com Marrocos mostra evolução
Mesmo com o crescimento haitiano no segundo tempo, a comparação com a estreia é positiva.
Contra Marrocos, o Brasil sofreu 14 finalizações, permitiu duas grandes chances e viu o adversário realizar 13 ações dentro da área.
Além disso, os momentos de maior intensidade foram favoráveis aos marroquinos.
Contra o Haiti, a Seleção não sofreu nenhum chute durante o primeiro tempo, criou chances mais perigosas, marcou três gols antes do intervalo e teve um domínio territorial muito mais consistente.
A equipe ainda não mostrou capacidade para controlar os 90 minutos de uma partida, mas mostrou evolução em algo igualmente importante: transformar posse de bola em oportunidades reais de gol.
O que os números dizem sobre o Brasil?
Depois de dois jogos, a impressão é que o Brasil está mais próximo da ideia de jogo que Carlo Ancelotti busca implementar.
A Seleção mostrou maior eficiência ofensiva, encontrou em Vinícius Júnior seu principal desequilibrador e viu Matheus Cunha aproveitar a oportunidade para entrar na disputa por uma vaga no time titular.
Ao mesmo tempo, os dados do segundo tempo contra o Haiti reforçam que a equipe ainda alterna períodos de controle absoluto com momentos de perda de intensidade.
O saldo, porém, é claramente positivo.
Se contra Marrocos o Brasil saiu de campo cercado de dúvidas, contra o Haiti os números apontam para uma equipe em evolução, especialmente na criação de chances e na capacidade de dominar territórios ofensivos.
Agora resta saber se esse crescimento será suficiente para sustentar o mesmo nível quando o nível dos adversários voltar a subir.
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