Turquia fora da Copa: o que explica a eliminação precoce no Grupo D

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Escrito por: Gabriel Gonçalves, Redator senior | Revisado por: Carla Leal, Revisora
Publicado jun 22, 2026 - Última atualização jun 22, 2026 0
foto para ilustrar a eliminação da turquia

Matthew Huang/Getty Images

Poucas eliminações nos quase 100 anos de história das Copas parecem tão contraditórias quanto a saída da Turquia da Copa de 2026.

Uma das fortes candidatas à zebra da Copa, muito por conta da qualidade de elenco, conseguiu controlar jogos e criar volume ofensivo, mas saiu sem marcar um gol (ainda pode fazê-lo na última rodada).

O time empilhou estatísticas positivas e encurralou os seus adversários, mas não conseguiu acertar o que mais precisava.

Por que a Turquia já foi eliminada?

A FIFA mudou os critérios de desempate para a Copa de 2026: o confronto direto passou a ter prioridade sobre o saldo geral de gols.

Na prática, isso tornou muito mais difícil a recuperação de seleções que perdem os dois primeiros jogos. Por causa da nova regra, Haiti, Turquia e Tunísia foram eliminados já na segunda rodada.

Mesmo que vençam na última partida e empatem em pontos com adversários diretos, elas não conseguem ultrapassá-los por terem perdido o confronto entre si. A consequência é um número maior de eliminações antecipadas ainda na fase de grupos.

A Turquia dominou os dois jogos

Contra a Austrália, na primeira rodada da Copa do Mundo, a Turquia teve 72% de posse de bola, completou 704 passes contra apenas 271 dos australianos e registrou 85 entradas no terço final, segundo os dados do Sofascore.

Foram 20 finalizações segundo os dados oficiais da partida, com um total de 30 chutes contabilizados pelas estatísticas avançadas da Opta, além de oito escanteios e 51 ações dentro da área rival.

Contra o Paraguai, o cenário foi ainda mais extremo.

A equipe terminou com 79% de posse, 629 passes contra apenas 178 do adversário, 12 escanteios contra nenhum dos paraguaios e 50 ações na área adversária.

Mesmo jogando todo o segundo tempo com um homem a mais após a expulsão de Miguel Almirón, os turcos perderam por 1 a 0. Somando os dois jogos:

  • 62 finalizações
  • 151% de posse acumulada
  • 1.333 passes tentados
  • 20 escanteios
  • 101 ações na área adversária
  • 0 gols

Segundo a Opta, os 62 chutes sem marcar representam o maior volume de finalizações sem gol em uma sequência de dois jogos de Copa do Mundo desde o início dos registros, em 1966.

Muito volume, mas pouca qualidade foi o grande problema da Turquia

O problema da Turquia não foi criar, foi transformar domínio em chances realmente perigosas.

Contra a Austrália, os turcos registraram apenas 1,36 xG apesar das 30 finalizações. A equipe teve duas grandes chances e desperdiçou ambas.

gráfico de gols da turquia

Fonte: Sofascore

Isso significa que boa parte dos chutes veio de posições pouco favoráveis. A própria distribuição das finalizações ajuda a explicar isso:

  • 16 chutes de fora da área
  • apenas 14 dentro da área
  • 12 finalizações bloqueadas

Mesmo com 71 passes rompendo linhas de meio-campo — o maior número registrado em uma partida de Copa desde 2010 — a equipe encontrava dificuldades para desmontar as últimas linhas defensivas.

Contra o Paraguai o cenário mudou parcialmente. O xG (número de gols esperados para a partida) subiu para 2,17, mas a eficiência continuou inexistente.

Foram:

  • 32 finalizações
  • 5 grandes chances
  • 5 grandes chances desperdiçadas

A Turquia simplesmente não converteu nenhuma delas.

A posse de bola da Turquia não significou nada

O jogo contra o Paraguai talvez seja o maior exemplo disso.

Os turcos tiveram 78,6% de posse de bola, marca que entrou para as maiores registradas em Copas desde 1966. Trocaram 559 passes certos, chegaram 76 vezes ao terço final e completaram 261 passes nessa região do campo.

Mesmo assim perderam. A posse serviu para empurrar o adversário para trás, mas não para abrir espaços suficientes para finalizar com qualidade.

É a diferença entre controlar a bola e controlar o jogo.

foto de stats da turquia

Fonte: Sofascore

As estrelas produziram, mas não decidiram para ajudar a Turquia

Arda Güler foi provavelmente o melhor jogador turco nas primeiras partidas do grupo.

Contra a Austrália, liderou a Copa em finalizações numa única partida, com oito chutes, três deles no alvo. Ainda criou jogo, acertou 62 passes no campo ofensivo e distribuiu quatro bolas longas.

Contra o Paraguai, criou uma grande chance, acertou 58 passes, sofreu seis faltas e percorreu 11,4 quilômetros.

Mas seus números também revelam um problema: muita participação e pouca eficiência. Foram três finalizações contra os paraguaios, duas delas bloqueadas.

Kenan Yildiz também apareceu bastante. Contra o Paraguai, foram 6 finalizações, 4 dribles certos, 84 ações com a bola e 10,3km percorridos.

Mas terminou a Copa com apenas um chute no alvo.

Kerem Aktürkoğlu, apontado como uma das principais esperanças ofensivas da equipe, teve desempenho muito abaixo do esperado.

Contra a Austrália, finalizou três vezes, perdeu uma grande oportunidade e participou pouco da construção, com apenas seis passes. Contra o Paraguai, sequer conseguiu finalizar.

Os adversários conseguiram ser mais eficientes que a Turquia

Enquanto a Turquia acumulava posse e finalizações, Austrália e Paraguai foram cirúrgicos.

A Austrália precisou de apenas nove chutes para marcar duas vezes. Teve apenas 28,3% de posse de bola — a menor da sua história em Copas — e mesmo assim venceu por 2 a 0.

O goleiro Patrick Beach foi decisivo com oito defesas, três delas classificadas como grandes intervenções. Segundo os dados da partida, ele evitou 1,46 gol esperado.

Já o Paraguai precisou de apenas sete finalizações para vencer. Marcou com Matías Galarza aos 64 segundos de jogo, no gol da vitória mais rápido da história das Copas, e resistiu até o fim mesmo com um jogador a menos durante toda a etapa final.

A eliminação é explicada (ou não) pelos números

O paradoxo da Turquia é que os números parecem retratar uma equipe competitiva.

A Seleção Turca teve mais posse de bola nos dois jogos, mais passes, mais entradas no terço final, mais ações na área adversária, mais escanteios e mais finalizações.

Mas o futebol não premia quem produz mais volume. Premia quem transforma oportunidades em gols. E foi justamente aí que a campanha turca desmoronou.

O que esperar da última rodada?

Apesar da eliminação precoce, a Turquia ainda tem um jogo a fazer na Copa. No dia 25 de junho, a partir das 23h, enfrenta os donos da casa, os EUA.

O jogo será no SoFi Stadium, em Inglewood, nos EUA, e servirá para dar algum alento aos turcos. A tendência é que o time de Vincenzo Montella tente apresentar resposta e marcar ao menos um gol.

Por outro lado, os EUA vêm embalados com duas vitórias, 6 gols marcados e apenas 1 sofrido. Nesse sentido, a despedida dos turcos nos EUA não vai ser muito fácil.

E o que esperar para os próximos anos?

Apesar da campanha ruim nos EUA, a Turquia pode sonhar com um futuro melhor. Yildiz tem só 21 anos, Guller tem 21 também, Kokçu tem 25 e o goleiro Bayindir tem 28.

Portanto, o time tem boa prospecção para pelo menos mais uma ou duas Copas. Portanto, com um bom ciclo, a Turquia pode corrigir os problemas que a eliminaram em 2026.

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