
Premier League
A Premier League começa uma nova temporada nesta semana e, mais uma vez, o futebol inglês estará no centro das atenções. Mas o tamanho da competição vai muito além da disputa pelo título.
Todos os anos, milhões de torcedores de diferentes países acompanham Manchester United, Liverpool, Arsenal, Manchester City, Chelsea e companhia.
Os melhores jogadores do mundo desembarcam na Inglaterra, os estádios permanecem lotados e praticamente cada rodada cria uma nova história.
Mas o que explica tamanho sucesso? A resposta não está em apenas um fator.
A Premier League construiu uma combinação de dinheiro, audiência global, competitividade, grandes marcas, experiência nos estádios e tecnologia que transformou o campeonato inglês em um produto esportivo global.
Uma liga que ultrapassou as fronteiras da Inglaterra
O primeiro dado impressionante é: alcance. Segundo o Report Anual da Premier League 2024/25, a Premier League tem cerca de 1,8 bilhão de fãs em 189 países.
A competição também é distribuída internacionalmente por parceiros como:
- ESPN no Brasil e na América do Sul (agora com parceria firmada com a CazéTV);
- NBC Sports nos Estados Unidos;
- DAZN na Espanha e Portugal;
- Sky na Alemanha e Itália;
- beIN Sports no Oriente Médio e Norte da África.
Em 2024/25, 1.45 bilhão de pessoas assistiram ao vivo a partidas da Premier League, segundo o relatório anual da competição. A média foi de 40.459 torcedores por jogo nos estádios.
O alcance também aparece no digital. A Premier League mantém mais de 11,5 milhões de participantes no Fantasy Premier League e vem ampliando a maneira como o torcedor acompanha a competição para muito além da transmissão tradicional.
Isso ajuda a explicar uma mudança fundamental: a Premier League deixou de ser apenas um campeonato inglês.
O dinheiro alimenta o espetáculo
Na temporada 2024/25, os clubes da Premier League geraram £6,8 bilhões em receitas (o equivalente a 47 bilhões de reais), alta de 8% em relação aos £6,3 bilhões da temporada anterior.
A Deloitte estima que a marca de £7 bilhões*tenha sido superada em 2025/26, impulsionada pelo novo ciclo de direitos de transmissão e pelo desempenho dos clubes ingleses nas competições europeias.
Porém, vale reforçar que a Premier League ainda não lançou o report anual.
A divisão das receitas também mostra a força do negócio
Fonte:s: Deloitte e Premier League Annual Report
A receita comercial chegou a £2,4 bilhões, crescimento de 13%. A receita de jogos nos estádios passou de £1 bilhão pela primeira vez, enquanto a receita de transmissão ficou em aproximadamente £3,4 bilhões.
O chamado Big Six continua concentrando boa parte desse dinheiro comercial.
Segundo a Deloitte, Arsenal, Chelsea, Liverpool, Manchester City, Manchester United e Tottenham responderam por aproximadamente 73% da receita comercial coletiva*dos clubes da liga em 2024/25.
Mas há outro detalhe importante: a Premier League também distribui dinheiro de forma centralizada.
Na temporada 2024/25, a competição destinou mais de £550 milhões ao futebol fora da própria Premier League.
O modelo de distribuição central é apresentado pela própria liga como um dos mais equilibrados entre as grandes competições europeias.
A lógica é importante para o produto: o dinheiro não fica restrito aos clubes que já são gigantes.
O outro lado: o prejuízo da liga
Fonte: Deloitte e Premier League Annual Report
Existe, porém, um paradoxo que ajuda a entender a dimensão do negócio.
Mesmo com receita recorde de £6,8 bilhões, os clubes da Premier League registraram prejuízo agregado antes de impostos de £948 milhões em 2024/25, contra £135 milhões no ano anterior.
Os custos salariais chegaram ao recorde de £4,4 bilhões, enquanto apenas oito clubes registraram lucro operacional, contra 13 na temporada anterior. A relação média entre salários e receitas ficou em 65%.
Ou seja: a Premier League é uma máquina gigantesca de geração de receita, mas também é uma competição em que os clubes estão dispostos a gastar enormes quantias para continuar competitivos.
Isso ajuda a explicar por que jogadores e treinadores de alto nível continuam sendo atraídos para a Inglaterra. E é possível ver os números com os gastos dos ingleses na atual janela de transferências.
O novo ciclo de televisão aumenta ainda mais essa máquina
Os novos acordos de direitos de transmissão no Reino Unido para 2025/26 a 2028/29 foram fechados por £6,7 bilhões ao longo de quatro anos.
É o maior acordo de direitos esportivos da história do Reino Unido no momento do anúncio.
A Premier League também mantém contratos internacionais em dezenas de mercados. No Brasil, por exemplo, a ESPN adquiriu os direitos para o ciclo 2025/26–2027/28.
O interessante é que a liga não depende mais apenas do público doméstico. Quanto maior o interesse internacional, maior o valor do produto.
A experiência começa antes da bola rolar
Um dos grandes poderes da Premier League é a força da experiência presencial.
Na temporada 2024/25, a ocupação dos estádios chegou a 98,8%, com média superior a 40 mil torcedores por partida.
Os estádios também estão sendo modernizados.
Entre 1992/93 e 2024/25, 22 dos 51 clubes que já disputaram a Premier League construíram ou mudaram de estádio, enquanto outros 27 realizaram grandes melhorias em suas arenas e cinco reconstruíram completamente seus estádios.
A mensagem é clara: infraestrutura também faz parte do produto.
Dentro de campo, a Premier League também entrega espetáculo
Fonte: Footystats
Os dados das últimas temporadas mostram que a competição consegue produzir um alto volume de gols.
- Em 2023/24, foram 1.246 gols em 380 jogos, média de 3,28 por partida.
- Em 2024/25, foram 1.115 gols, média de 2,93.
- Na temporada 2025/26, foram 1.045 gols, média de 2,75.
A média caiu nos últimos anos, mas ainda existe um volume elevado de gols. Em 2025/26, 56% das partidas tiveram gols dos dois times.
E não é apenas o título que mantém o público interessado.
Na temporada 2024/25, por exemplo, a disputa por vagas europeias chegou à última rodada. A competição terminou com um recorde de nove clubes classificados para torneios europeus.
Isso significa que existem histórias acontecendo em praticamente todas as partes da tabela.
Não é preciso torcer para o campeão
Esse talvez seja um dos maiores diferenciais.
A Premier League possui uma concentração enorme de clubes globalmente conhecidos.
Manchester United, Liverpool, Arsenal, Chelsea e Manchester City conseguem gerar audiência em diferentes continentes.
Mas o modelo também cria interesse por clubes menores.
Brigas por Champions League, Europa League, permanência, classificação e até uma única partida entre rivais podem mudar completamente a narrativa de uma temporada.
Na prática, uma rodada da Premier League consegue oferecer várias competições dentro da própria competição.
É uma das razões pelas quais o campeonato permanece relevante durante quase todo o calendário.
É a “Copa do Mundo” semanal?
A Premier League reúne jogadores de diferentes nacionalidades, escolas táticas e mercados em um mesmo campeonato.
O torcedor pode chegar à competição por causa de um brasileiro, continuar acompanhando por um atacante norueguês e se interessar por um treinador espanhol.
Essa diversidade amplia o público potencial. A Premier League não vende apenas clubes ingleses, mas personagens internacionais atuando em seu palco.
E agora a liga quer transformar até a experiência digital
A próxima fronteira é a tecnologia.
Em 2025, a Premier League anunciou uma parceria de cinco anos com a Microsoft para transformar a experiência de seus fãs.
O novo Premier League Companion utiliza inteligência artificial para trabalhar com informações de mais de 30 temporadas de estatísticas, 300 mil artigos e 9 mil vídeos.
A ferramenta foi criada para responder perguntas dos torcedores, oferecer informações personalizadas e aproximar o público dos clubes e jogadores.
A tecnologia também será utilizada no Fantasy Premier League, em dados de partidas e em experiências digitais personalizadas.
É mais uma mudança importante. A Premier League não está apenas tentando fazer o torcedor assistir ao jogo.
Ela quer que o torcedor passe mais tempo dentro do ecossistema da liga.
O impacto vai muito além dos 20 clubes
Fonte: Premier League Annual Report
Existe ainda uma dimensão menos lembrada do sucesso da Premier League.
O relatório anual mostra que 164 clubes receberam apoio para programas comunitários.
Mais de 2,5 milhões de pessoas foram beneficiadas por programas do Premier League Charitable Fund, enquanto a competição se comprometeu com £450 milhões em investimentos no fundo e em programas nacionais até 2028.
Entre 2022 e 2025, a Premier League havia comprometido £1,6 bilhão para o futebol e comunidades, incluindo investimentos na pirâmide profissional, futebol feminino, categorias de base e grassroots.
Um estudo da EY citado pela própria Premier League apontou ainda que a liga e seus clubes contribuíram com £9,8 bilhões para a economia do Reino Unido em 2023/24 e sustentaram mais de 104.500 empregos.
Ou seja: o negócio não termina nos 20 clubes, mas movimenta uma cadeia inteira dentro da Inglaterra.
O verdadeiro segredo da Premier League
No fim, a explicação para o sucesso da Premier League não está em apenas um número. Não é somente dinheiro e grandes jogadores.
A Premier League transforma:
- dinheiro em grandes elencos;
- grandes elencos em espetáculos;
- espetáculos em audiência;
- audiência em direitos de transmissão e patrocínios;
- receita em infraestrutura e experiência.
E o ciclo termina com experiência transformada em audiência, reforçando como o campeonato inglês não é mais uma competição doméstica, a exemplo de La Liga e outros torneios europeus.
A Premier League construiu um dos maiores produtos esportivos do mundo porque entendeu que, no futebol moderno, não basta ter grandes jogadores em campo.
É preciso construir uma experiência que comece antes do apito inicial e continue depois do apito final.
E é justamente por isso que, enquanto os clubes se preparam para mais uma disputa pelo título, bilhões de pessoas ao redor do mundo já estão prestando atenção.

